Narcisa Amália: breve biografia e introdução a “Nebulosas”

Historicamente, a nossa sociedade patriarcal relegou à mulher uma posição de “outro”, de ser incompleto e dependente do homem, ou, como vemos na obra de Simone de Beauvoir, de segundo sexo. Essa forma de pensar possibilitava ao masculino o privilégio de decidir os rumos da sociedade e de fazer prevalecer sempre a sua prerrogativa, independentemente da vontade feminina. O reflexo dessa configuração, naturalmente, se apresentou em todos os campos sociais, desde os pragmáticos até os subjetivos, como as artes. Na literatura, nosso cânone demonstra como as mulheres foram privadas da escrita e, mesmo quando conseguiram superar essa barreira, sofreram apagamento — é esse o caso de Narcisa Amália, autora de Nebulosas.

Nascida em 1852, na cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro, Narcisa Amália de Campos é considerada a primeira jornalista profissional do Brasil. Filha dos professores Jácome de Campos e Narcisa Ignácia de Mendonça, contou desde criança com o incentivo dos pais ao estudo, algo raríssimo numa sociedade que costumava ignorar ou reprimir as potencialidades intelectuais das mulheres. Segundo Anna Faedrich, Narcisa Amália “estudou latim e francês, ainda em São João da Barra, com o padre Joaquim Francisco da Cruz Paula, que lecionava por prazer”¹. Aos onze anos, se mudou para Resende, onde viveu por aproximadamente duas décadas, até se dirigir à capital do Império, o Rio de Janeiro, lugar de seu falecimento, no ano de 1924. A segunda cidade é importante para o estudo de Nebulosas, pois assume o símbolo caracteristicamente romântico de terra natal, idealizada no poema Resende:

“Mal sabes que profundos dissabores
Passei longe de ti, éden de encantos!
Quanto acerbo sofrer, quantos agrores
Umedeci com as bagas [lágrimas] de meus prantos!”²

No Romantismo brasileiro, a idealização ocorre de inúmeras formas e focaliza diversos alvos, como o indígena, a pátria, a mulher e a infância. Frequentemente, essa tendência surgia como reação a uma realidade dura e atribulada, e a simples existência da mulher já se tornava um empecilho implacável na nossa sociedade. Narcisa Amália se casou duas vezes e abandonou ambos os maridos, sofrendo todo tipo de julgamento, ignorando-se as razões que a levaram a isso: no primeiro caso, o companheiro se tornou boêmio; no segundo, tomado por ciúme, o homem a trancou em casa, o que a forçou a fugir de Resende para o Rio de Janeiro. Não é de se surpreender que ela não tenha se casado novamente…

Apesar do apagamento histórico de seu nome e dos traumas conjugais, a autora recebeu algum crédito imediato pela publicação de Nebulosas, com apenas vinte anos, em 1872. Um caso memorável é o do texto de Machado de Assis, publicado na revista Semana ilustrada, meses após o lançamento do livro, recomendando a leitura: 

“A leitura das Nebulosas causou-me a este respeito excelente impressão. Achei uma poetisa, dotada de sentimento verdadeiro e real inspiração, a espaços de muito vigor, reinando em todo o livro um ar de sinceridade e de modéstia que encanta, e todos esses predicados juntos, e os mais que lhe notar a crítica, é certo que não são comuns a todas as cultoras da poesia”.³

Primeiros parágrafos do texto escrito por Machado de Assis na revista Semana ilustrada.

Além das palavras elogiosas de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Narcisa Amália recebeu uma visita do próprio D. Pedro II e venceu prêmios literários em 1873 e 1874. Embora não tenha publicado outros livros de poesia, a autora escreveu poemas diversos em jornais e foi tradutora, professora e crítica literária. Sem nunca esconder seu posicionamento liberal e republicano, condenou a tirania de D. Pedro I no processo de dissolução da Assembleia Constituine, em 1823, e manifestou reprovação ao regime escravocrata. Os poemas de Nebulosas, nesse contexto, apresentam temas diversos, mas sempre prevalece um eu poético melancólico e resignado, como vemos nos seguintes versos de Desalento:

Por que deixas, ó Deus, que o gelo queime
                Minh’alma, planta fria?!
Cedo descansarei (que importa?) os membros
                Na penumbra sombria

Onde a roxa saudade funerária
                Enlaça-se ao cipreste;
Onde a lua, chorosa peregrina,
                Derrama a luz celeste!4

Teoricamente, a diversidade temática torna Nebulosas um livro de difícil enquadramento no nosso Romantismo, considerando a tradição de se associarem as obras às ditas três gerações. Se agirmos conforme o tradicional, ligaremos os poemas de Narcisa Amália aos três momentos românticos. No caso da primeira geração, apesar de não haver a idealização do indígena, sobressai a exaltação idealizante da pátria e da natureza, como vemos em Sete de setembro, poema de homenagem à Independência:

Salve! dia feliz, data sublime,
Que despertas o sacro amor da pátria
                Em nossos corações!
Salve! aurora redentora que eternizas
A era em que o Brasil entrara ovante
                No fórum das nações!

De qualquer forma, apesar do caráter multifacetado de Nebulosas, há, incontestavelmente, o prevalecimento de aspectos da segunda geração, ultrarromântica. O mais evidente é o eu melancólico que podemos antecipar pelos títulos de mais de uma dezena de poemas: Nebulosas (poema homônimo), AflitaDesengano, DesalentoAgoniaAmargura, Fragmentos, Cisma, Resignação, PesadeloSadness. Os versos a seguir são do último texto citado:

Meu anjo inspirador é frio e triste
Como o sol que enrubesce o céu polar!
Trai-lhe o semblante pálido — do antiste
               O acerbo meditar!

Os traços da terceira geração romântica, a libertária, aparecem, por exemplo, em O africano e o poeta, poema abolicionista que humaniza o escravizado. Não por acaso, Narcisa Amália insere versos de Lamartine, poeta francês contrário à escravização, na epígrafe do texto. A estrofe abaixo é a penúltima de O africano e o poeta:

— Depois, o castigo
Cruento, maldito,
Caiu no proscrito
Que o simum crestou;
Coberto de chagas,
Sem lar, sem amigos,
Só tendo inimigos…
Quem há como eu sou?!…
                — Quem há?… O poeta
                Que a chama divina
                Que o orbe ilumina
                Na fronte encerrou!…6

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Em Nebulosas, mesmo com apenas vinte anos, Narcisa Amália demonstra domínio poético impressionante e vasto conhecimento da poesia de seu tempo, nítido nas citações de autores brasileiros e europeus. Infelizmente, o preconceito de gênero provavelmente determinou a resignação da escritora quanto à possibilidade de publicar novos livros; todavia, é lendo Nebulosas e outras autoras apagadas que, aos poucos, desconstruímos uma tradição excludente e injusta.

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¹ FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas. Rio de Janeiro, Macabéa, 2022, p. 77.
² AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Prefácio e notas explicativas Literatura em Dobro. Barueri, SP: Amora, 2026, p. 90.
³ Semana ilustrada, 29 de dezembro de 1872, n. 629, p. 5030.
4 AMÁLIA, Narcisa, op. cit., p. 56-7.
5 AMÁLIA, Narcisa. op. cit., p. 148.
6 AMÁLIA, Narcisa. op. cit., p. 147.

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Quem escreve

Grazzi é formada em Letras, Tradução e Interpretação, com formações complementares em Teatro Profissionalizante e Psicanálise, e leciona há mais de 20 anos. No projeto, dedica-se especialmente às narrativas intimistas e psicológicas, com foco na prosa realista, moderna e contemporânea. Raul é bacharel em Letras pela USP, com afinidade pela poesia e pelas literaturas colonial e histórica, explorando as relações entre texto literário e contexto social ao longo dos períodos literários.

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