No século XIX, a mulher e o homem eram vistos como gêneros de naturezas diversas. O masculino seria racional, forte e dominador; o feminino, sensível, frágil e submisso. Esse pensamento colaborou para organizar a sociedade brasileira patriarcalmente, pois papéis sociais eram definidos com base na suposta essência de cada gênero, ficando os homens com o estudo e a carreira e as mulheres com o cuidado doméstico e a maternidade. Embora um olhar crítico nos possibilitasse problematizar essa estrutura sob inúmeras perspectivas, enfatizaremos, nesse contexto, uma das principais denúncias de Júlia Lopes de Almeida em suas obras: a falta de independência financeira feminina.
Nascida em 1862, a autora se destacou na literatura e na imprensa desde o final do século XIX até a sua morte, em 1934. Numa sociedade que não admitia a inserção da mulher no espaço público, é de se admirar a notoriedade que Júlia Lopes de Almeida alcançou no período. Escreveu poemas, contos, crônicas, romances, materiais didáticos e textos de literatura infantojuvenil e se destacou pela colaboração no jornal republicano e abolicionista O Paiz¹, um dos mais relevantes do Brasil na época. Apesar de sua importância histórica para as letras brasileiras, especialmente no contexto da luta feminina por igualdade de gênero, a escritora foi vítima de uma das maiores injustiças da literatura nacional.
Em 1897, após uma série de sessões preparatórias, fundou-se a Academia Brasileira de Letras conforme o modelo da Academia Francesa. Embora tenha participado da idealização da instituição com o marido, o português Filinto de Almeida, Júlia Lopes de Almeida não se tornou membro, pois o regulamento da ABL não admitia mulheres, o que se manteve por quase um século. No entanto, apesar de sua oposição à exclusão feminina, Filinto foi admitido. Apenas em 1977 — e de forma bem polêmica —, Rachel de Queiroz quebrou a tradição e se tornou a primeira mulher a ingressar na Academia. Antes dela, importantes nomes femininos permaneceram ofuscados, como Cecília Meireles e Adélia Prado (embora ambas tenham vencido o prêmio Machado de Assis). Embora a exclusão de Júlia Lopes de Almeida da ABL seja um exemplo oportuno da desigualdade de gênero no período, convém conhecer o início da trajetória da autora para se entender mais detalhadamente sua importância histórica e literária.
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Júlia Lopes de Almeida e Filinto de Almeida, seu marido².
Em entrevista a João do Rio, a escritora conta que
“[…] eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los. Fechava-me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas… De repente, um susto. Alguém batia à porta. E eu, com a voz embargada, dando volta à chave da secretária: já vai, já vai! A mim sempre me parecia que se viessem a saber desses versos, viria o mundo abaixo. Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em versos, com descrições e diálogos, quando senti por trás de mim uma voz alegre:
— Peguei-te, menina!
Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava:
— Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papa!
— Não mostres!
— É que mostro!
— Vai fazê-lo zangar comigo. Não sejas má!”³
O relato surpreende por retratar o simples fazer poético como uma prática proibida para a pequena Júlia, que se assombra com a ameaça de delação da irmã ao pai. A figura paterna, nesse contexto, é relevante, porque a transgressão feminina seria julgada por um homem. No entanto, apesar do receio da criança, uma exceção possibilitou o início de uma trajetória brilhante: o pai de Júlia Lopes de Almeida a estimulou a publicar seus escritos. A mesma situação ocorreu com Narcisa Amália, autora de Nebulosas, cujo pai, Jácome de Campos, sendo professor e escritor, incentivou a filha a escrever e aprender outras línguas desde a infância. O quadro, então, se pinta: para uma mulher ser artista no Brasil do século XIX, era incortonável a autorização de um homem, geralmente o pai ou o marido.
Essa dependência do aval masculino se aplicava a todos os campos da vida feminina, inclusive o pecuniário. No início do texto, mencionamos a falta de autonomia financeira da mulher como um dos temas principais da literatura de Júlia Lopes de Almeida. A autora aborda o tópico no Livro das noivas (1896), em A falência (1901), sua obra-prima, e no romance de nosso interesse, Memórias de Martha (1899), o primeiro publicado pela autora. O ano de 1899 corresponde à data de publicação do livro em volume; porém, originalmente, saiu em folhetins entre dezembro de 1888 e janeiro de 1889, no Rio de Janeiro. Um olhar atento aos parágrafos iniciais da narrativa nos permite analisar como a dependência financeira da mulher sobre o homem é denunciada pela autora em Memórias de Martha. Após relatar a morte de seu pai, a protagonista assume que
“Não posso acompanhar o movimento de transição da nossa vida, desse tempo para o outro, em que habitamos um cortiço de São Cristóvão.
Aí já minha mãe não tinha criados, nem mesmo a velhinha que nos acompanhava outrora, e que partiu não sei para onde, nem com quem. Lembro-me de que vivíamos nós duas sós; minha mãe engomando para fora, desde manhã até a noite, sem resignação, arrancando suspiros do peito magro, mostrando continuamente as queimaduras das mãos e a aspereza da pele dos braços estragada pelo sabão”4.
Em suma, a morte do pai provocou a ida da família ao cortiço de São Cristóvão, pois a mãe, sem estudo e sem emprego qualificado, não conseguiria manter o padrão de vida anterior. Conforme o excerto, para sustentar a filha, que narra a história, ela lava e passa roupas dos clientes incessantemente. O trabalho braçal é árduo e de remuneração ínfima, apesar do esforço. A condição de vida, conforme Martha, é indigna:
“Nosso almoço era café e pão: café sem leite, muito fraco. O meu quinhão era sempre o maior. Findo o almoço, ia eu, como na véspera, para a porta, atraída pelos gritos alegres das crianças, e dali voltava chorosa, oprimida pela superioridade das outras, muito mais fortes do que eu.
Chamavam-me lesma! Mole! Palerma! E riam-se das minhas quedas, da minha magreza e da minha timidez. Eu, em começo, estranhava aquela moradia, com tanta gente, tanto barulho, num corredor tão comprido e infecto onde o ar entrava contrafeito e a água das barrelas se empoçava entre as pedras desiguais da calçada”5.

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Sendo assim, Memórias de Martha, já em seu início, demonstra a consciência de Júlia Lopes de Almeida quanto à vulnerabilidade da mulher numa sociedade em que o homem detém exclusivamente o acesso ao trabalho qualificado. Num cenário de igualdade básica de gênero, será que mãe e filha, apesar do abalo provocado pela morte do pai e marido, não teriam permanecido numa situação de vida mais digna?
No romance em questão, a escritora critica uma série de outros problemas sociais, como o diagnóstico de histeria, a miséria e as epidemias nos cortiços e o casamento como convenção social. No entanto, como o objetivo desse texto é apresentar brevemente a trajetória literária de Júlia Lopes de Almeida numa associação com o seu romance de estreia, Memórias de Martha, a discussão desses temas fica para outra oportunidade.
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¹ FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas. Rio de Janeiro: Macabéa, 2022.
² Imagem reproduzida de https://oglobo.globo.com/cultura/livros/noticia/2022/07/sucesso-no-inicio-dos-anos-1900-e-depois-esquecida-obra-de-julia-lopes-de-almeida-ganha-reedicoes.ghtml
³ RIO, João do. “Um lar de artistas”. In: O momento literário. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca
Nacional; Departamento Nacional do Livro, 1994, p. 28-9 apud FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas. Rio de Janeiro: Macabéa, 2022, p. 118.
4 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Memórias de Martha. 1. ed. Introdução e notas explicativas de Literatura em Dobro. São Paulo: Amora, 2025, p. 15.
5 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Memórias de Martha. 1. ed. Introdução e notas explicativas de Literatura em Dobro. São Paulo: Amora, 2025, p. 16.
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