*Texto publicado originalmente na Cartilha de Medicina USP 114 (ano de 2026)
A partir da edição 2026, a FUVEST apresentou mudanças consideráveis em relação às obras literárias. Buscando um método ativo de cobrança, a prova passou a exigir um olhar crítico e interdisciplinar em detrimento do tradicional conteudismo que visualizava a literatura como um depósito de informações. Não basta, por exemplo, conhecer o enredo de Canção para ninar menino grande, ou seja, saber as histórias de todas as mulheres e de Fio Jasmim. O vestibular, agora, demanda um olhar crítico sobre o contexto sócio-histórico, a conexão com as outras obras e a interdisciplinaridade com os outros campos do conhecimento: quem é cada personagem no seu período e na sua sociedade? Como os livros convergem ou divergem em relação a determinadas ideias? Como as obras dialogam com as outras áreas do saber humano?
Embora as duas fases da FUVEST apresentem diferenças no modelo das questões (objetivas e discursivas), exigindo estratégias diversas, a abordagem quanto às obras é muito semelhante. Para exemplificar, podemos pensar em cobranças da edição 2026 de Opúsculo humanitário, na primeira fase, e Memórias de Martha, na segunda. Na questão 09 (prova V1), sobre Nísia Floresta, a prova introduziu ideias de Émile Durkheim e perguntou como elas se conectavam com as da autora brasileira. Nesse caso, não devemos conhecer profundamente a sociologia do francês para solucionar o problema, mas precisamos, de maneira ativa, analisar as informações dadas pelo enunciado e associá-las ao que já sabemos sobre o Opúsculo humanitário.
De forma análoga, na questão de Memórias de Martha (07, primeiro dia), a prova inseriu um trecho do ensaio De cortiço a cortiço, de Antonio Candido, e perguntou se o romance de Júlia Lopes de Almeida convergia ou divergia das ideias do crítico literário. Nesse caso, a cobrança é semelhante: referências em determinado assunto (sociologia ou literatura) são inseridas para nos exigir seu entendimento e sua articulação com um saber prévio das obras. Sendo assim, apesar de as questões objetivas e discursivas solicitarem estratégias distintas dos candidatos, as habilidades necessárias para resolvê-las são essencialmente paralelas.
Nesse contexto, a tendência da FUVEST de cobrar um estudo crítico e ativo dos livros não se limita à articulação com outros nomes — como Durkheim e Candido —, mas entre as próprias obras. Por exemplo, um olhar atento para os livros citados, Opúsculo humanitário e Memórias de Martha, nos possibilita notar uma série de semelhanças entre os ideais das autoras, que se encontram essencialmente no mesmo período histórico. Nos seus artigos, Nísia Floresta denuncia o fato de, na metade do século XIX, as mulheres dependerem financeiramente de seus maridos. O que acontecia quando o homem falecia ou abandonava a esposa? No romance de Júlia Lopes de Almeida, vem a resposta: mãe e filha se mudam para o cortiço de São Cristóvão e vivem, por anos, em condições de miséria e vulnerabilidade social.
Ademais, um dos pontos mais salientes no modelo atual da FUVEST é a cobrança articulada entre os livros e os outros campos do saber. O desafio ainda é o mesmo: fazer associações críticas a partir do conhecimento das obras. A interdisciplinaridade pode ser mais esperada, como o paralelo entre literatura e artes plásticas — feita na questão 14 de A visão das plantas, prova V1, edição 2026 —, ou mais imprevisível, como entre a obra de Djaimilia Pereira de Almeida e zoologia, também na primeira fase de 2026 (prova V1, questão 86). A proposta educacional do vestibular, nesse viés, é formar estudantes críticos e dispostos a construir ideias em vez de armazenar conteúdo. No entanto, isso ainda não nos impede de esperar, em relação às nove obras da lista, determinadas cobranças.
Começando pelo século XIX, do Opúsculo humanitário (1853), imaginamos cobranças relacionadas às ideias de Nísia Floresta em relação à demanda por uma reforma educacional feminina, ao moralismo, à religiosidade cristã, ao positivismo, ao antilusitanismo, ao abolicionismo e à defesa dos povos indígenas. De Nebulosas (1872), o nacionalismo romântico na exaltação da natureza, a expressão de um sujeito melancólico, a idealização do passado (infância, terra natal, família) e o olhar político da autora (crítica à tirania de D. Pedro I, exaltação da Independência do Brasil e abolicionismo). Enfim, de Memórias de Martha (1899), comparações entre Realismo e Naturalismo, o papel da educação na vida da mulher, o casamento por convenção social, o diagnóstico de histeria, o racismo (Mathilde) e a quebra do amor romântico idealizado (Luiz versus Miranda).
Pensando nas obras estrangeiras, de Geografia (1967), esperamos cobranças relacionadas ao percurso geográfico estabelecido desde a utópica praia de Ingrina (primeira parte) até a própria poesia (sétima parte), passando pelo ditatorial Portugal dos anos 1960, pelos lugares domésticos e familiares, pela Grécia e Itália e pelo Brasil. De Balada de amor ao vento (1990), o percurso memorialístico de Sarnau, o título da obra, a desigualdade de gênero tanto na monogamia quanto na poligamia, a cosmovisão africana (especialmente nas narrativas paralelas) e o desfecho, com a atitude da protagonista diante do retorno de Mwando.
Por fim, no que diz respeito às outras quatro obras, de Caminho de pedras (1937), presumimos uma cobrança sobre o desengano da autora com a militância de esquerda, as contradições do grupo quanto à posição social da mulher, a articulação entre a vida privada (casamento, família) e a pública (envolvimento político) e o julgamento social sobre a protagonista envolvendo suas escolhas amorosas. De A visão das plantas (2019), o olhar decolonial na decadência física e psicológica de Celestino, a simbologia da redenção com o jardim, o dualismo culpa versus indiferença do capitão, a personificação das plantas e o significado dos delírios do protagonista. De A paixão segundo G.H. (1964), as crises existencial, identitária e social (barata e Janair), a busca pelo entendimento da dissolução do eu por meio da linguagem e a relação entre corpo e objeto. Finalmente, de Canção para ninar menino grande (2018), o conceito de escrevivência, a técnica narrativa próxima à oralidade, as experiências individuais e as condições de classe das várias personagens, Fio Jasmim como “menino grande”, o patriarcado no comportamento masculino e as marcas do racismo.
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